O APAGAR DAS LUZES: Keynes, Rússia e o elemento universal da alma humana

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Matheus Morais & Mateus Bruno

“The power to become habituated to his surroundings is a marked characteristic of mankind. Very few of us realise with conviction the intensely unusual, unstable, complicated, unreliable, temporary nature of the eco nomic organisation by which Western Europe has lived for the last half century” (KEYNES, 1919)

Fonte: Dazed, foto de Virginie Khateeb

Ao fim da primeira guerra mundial, quando os humores pútridos da violência deveriam acalentar-se, a Paz de Paris, contraditoriamente, fez tudo que pôde para mantê-los aquentados. Nessa reunião, as nações vencedoras decidiram impor às perdedoras retratações cujos termos, pode-se dizer, não eram menos do que punitivistas. Desse contexto o famoso tratado de Versalhes veio ao mundo, oprimindo rigorosamente todo o sistema econômico da Alemanha para que os alemães se purgassem de suas pretensões imperiais.

Contudo, uma voz se destacou durante a elaboração dos acordos, mais como um incômodo escalafobético do que como um anúncio profético: Keynes, um dos conselheiros da Grã-Bretanha, vociferou arduamente contra o revanchismo, relembrando a seus colegas, encolerizados e sedentos por vingança, que “fazer o mal como retribuição ao mal”, no dizer de Aristóteles, ainda que seja visto por muitos como um direito, é uma armadilha. Não à toa, o famoso economista-chefe dos Anos Dourados do Capitalismo, declamou, ao fim de seu livro “As consequências econômicas da paz (1919)”, alguns versos de Percy Shelley:

In each human heart terror survives

The ravin it has gorged

(Em cada coração humano o terror sobrevive ao desfiladeiro que engoliu)

O ponto central defendido por Keynes é que não existiria recuperação econômica para a Europa e, por implicação direta, à época, para o mundo, sem a Alemanha — pois esta era, tal como hoje, um país essencial à vitalidade da economia global. A situação atual, enquanto ainda presenciamos arrastar-se o conflito russo em território ucraniano, possui certas semelhanças que devem ser consideradas para além de fáceis anacronismos, nos quais não desejo ora cair, para que quaisquer soluções razoáveis possam ser formuladas, sem com isso se abrandar o teor firme das críticas à empreitada promovida por Putin.

A realidade é que, após a profunda crise pandêmica da COVID-19, as principais economias ocidentais não tiveram tempo o suficiente para resfolegar antes da invasão russa começar. As sanções — talvez, de fato, a medida, ao mesmo tempo, mais diplomática e mais poderosa possível a ser tomada com o objetivo de se pôr fim ao conflito — revelaram-se, como já era esperado, um sacrifício. Assim, o enfrentamento à política externa russa teve por efeito o espraiamento do conflito, antes restrito a Donbass, para dentro de quase todos os países europeus, acarretando grande inflação de combustíveis, de energia e de bens de primeira necessidade, de Berlin à Nova York.=

Fonte: Reuters, foto de Eric Gaillard

Em outras palavras, ao contrário do que muitos esperavam por menosprezar sua posição nas Cadeias Globais de Valor, a dificuldade que a Rússia enfrenta para se recuperar da crise dos últimos anos implica maior letargia à regeneração da Alemanha, da França, da Itália e até mesmo dos Estados Unidos, sem os quais a plena reabilitação econômica do planeta não é, ainda, possível — mesmo que tantos estudiosos estejam apontando para uma guinada ao Oriente. As lições que podemos tirar desse conflito e das respostas a ele dadas não são claras, e talvez pouco, ainda, possa ser dito sem tomar apenas a forma de uma admoestação: é preciso ser prudente.

Pode-se apontar algumas dificuldades no campo das relações internacionais difíceis de serem contornadas que dão um caráter de quase inevitabilidade aos dilemas com que hoje nos deparamos. Uma gama delas constitui-se de condições exteriores à Rússia, e outra penca à cosmovisão antiliberal interna do país liderado por Putin.

Em primeiro lugar, a dependência estrutural das economias ocidentais a fontes de energia não-renováveis, alertada há mais de 50 anos e a incapacidade das democracias liberais em construir planos reais a fim de se transformar a matriz de combustíveis fósseis, a despeito de todos os estudos por elas mesmas difundidos sobre a gravidade do aquecimento global, permitiu que a Rússia acumulasse em seu tesouro nacional uma forte moeda de barganha. Não havia saída fácil, claro, e não há dúvidas de que essa incapacidade talvez seja muito maior fora das democracias liberais, mas o fato é: trocou-se um sacrifício por outro. Contra um sacrifício à saúde econômica, às firmas, às tecnologias estabelecidas, à renda e aos empregos que poderia ter sido diluído por metade de um século, a Europa agora vive um sacrifício de terapia de choque, talvez muito mais doloroso do que se os acordos de descarbonização e de investimentos às energias limpas tivessem de fato sido levados a cabo. A guerra, como sempre, foi o único estímulo cuja imediaticidade foi capaz de levar à corrida repentina e malfeita por mudanças.

Em segundo lugar, o império geopolítico herdado da União Soviética construiu, na Rússia, uma visão de mundo e uma autocompreensão difíceis de serem conciliadas com um mundo não só globalizado e moderno — mas cuja cooperação e a multipolarização tornaram-se valores estabelecidos na diplomacia. Essa tensão não é encerrada ao oriente eurasiano, pois é a mesma que o mundo enfrenta devido ao excesso de poder dos Estados Unidos, cuja incapacidade de adoção de posições humanistas reflete-se na sua não adesão ao Tribunal de Haia. O antiliberalismo e o senso de liderança irreconciliável da Rússia, como descrito por Putin em uma de suas cartas, foi o grande responsável pela impossibilidade do país de conseguir construir relações econômicas, culturais e civilizacionais estáveis com as novas nações soberanas do Leste Europeu pós-1991, e não as “tentações ocidentais”.

Fonte: Aljazeera, foto de Emílio Morenatti

Por fim, é possível, assim, dizer que talvez não houvesse saída. Entrar em guerra contra um país que herdou o arsenal nuclear soviético seria suicídio — assim como seria, talvez, não muito diferente de uma eutanásia diplomática abster-se de condenar as atrocidades militares da Rússia na Ucrânia, suas inspirações eugênicas, seus crimes de guerra, e sua aversão à resolução de conflitos políticos por meio da calma das negociações internacionais. Mas uma grande lição, sem dúvida, remontando-se a Keynes, anuncia-se com premência:

Após a guerra, caso a Ucrânia consiga subsistir e sair com seu direito de autodeterminação assegurado, que a Rússia não seja punida, mas que o Ocidente se force a perdoá-la, engolindo-se o orgulho, em nome da verdadeira paz. Mais do que meramente o perdão, que se aproxime dela, que tente apaziguar as tensões que subjazem as relações entre “nós e eles” — que a perdoe ativamente, e não com indiferença.

Mas que não faça isso apenas pelos “interesses econômicos” envolvidos, mas pelo que realmente importa: fazer com que o lume do “elemento universal da alma humana”, como brilhantemente diz o Economista britânico, volte a arder com esplendor e força a partir da união transfronteiriça que o nutre, pois é com esta luz, com este fogo, que um dia escaparemos à escuridão dos nacionalismos geopolíticos que hoje impõe seu grave manto sobre a Europa na forma de racionamentos energéticos e de ameaças nucleares.

Fonte: Toronto Star, foto de Michael Maniezzo

Dessa vez, tentemos nos inspirar na caridade keynesiana e relembremos, novamente, as palavras de Shelley com as quais encerrou seus clamores — pois quem somos nós para não ouvi-lo, senão novamemte os derrotados que se recusaram a levar a vitória até aos perdedores?

The good want power, but to weep barren tears.

The powerful goodness want: worse need for them.

The wise want love; and those who love want wisdom;

And all best things are thus confused to ill.

Many are strong and rich, and would be just,

But live among their suffering fellow-men

As if none felt: they know not what they do.

(Os bons querem poder, mas choram lágrimas estéreis. Os poderosos querem a bondade: a pior necessidade para eles. Os sábios querem amor; e aqueles que amam querem sabedoria; e todas as melhores coisas são assim confundidas com o mal. Muitos são fortes e ricos, e seriam justos, mas vivem entre seus semelhantes sofredores com absoluta indiferença: eles não sabem o que fazem.)