Liberdade e flexibilidade com tranquilidade e segurança? Dicas para a vida PJ

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Metade da força de trabalho dos EUA será freelancer até 2027. A projeção foi feita pela Upwork, uma das principais plataformas de trabalho freelance do mundo.

A pandemia acelerou a tendência que não mostra sinais de desaceleração, sugerindo que podemos estar vivendo uma grande transformação no modelo como trabalhamos. Cada vez mais pessoas preferem trabalhar de forma autônoma a se dedicar em tempo integral e exclusivo a uma única empresa. Se esse é o seu caso, vem comigo que eu vou te contar o que eu aprendi em anos de vida PJ.

Há 12 anos, eu deixei um emprego seguro na área de publicidade do Itaú-Unibanco. Eu era uma profissional reconhecida, com indicações de que construiria uma carreira muito próspera no banco. Ao voltar de uma viagem de férias, senti uma enorme vontade de conhecer o mundo, de viver a vida fora do escritório, de ir ver como as pessoas vivem em realidades diferentes da minha. Eu tinha 31 anos, solteira, sem filhos e depois de meses de angústia e reflexão, uma amiga me perguntou “por que não?”. E assim, pedi demissão e viajei por 6 meses para o outro lado do mundo, me permitindo viver experiências que ampliassem minhas referências. Eu queria viver tudo o que não era conhecido para mim.

Quando voltei, não conseguia me ver mais dentro de um escritório. Minha curiosidade e interesses múltiplos estavam ainda mais aflorados e eu sentia que precisava viver em sistemas e com pessoas que estivessem sempre conectados a novidades, que olhassem para as coisas de outra forma. Comecei a trabalhar com inovação, sempre com o foco em comportamento humano e estratégia para marcas. E assim começou minha experiência trabalhando por projetos.

E a cada novo projeto, um novo time — que é a parte que eu mais gosto, conhecer gente, fazer junto, conectar diferentes saberes, perspectivas, experiências. Aliás, a maior alegria da minha vida é montar time — e honestamente, minha maior qualidade. Gestão de gente, encontrar e juntar as pessoas, me decepcionar com uma pessoa que eu tinha certeza que era perfeita para aquele projeto e ao mesmo tempo me surpreender com outra que eu não imaginava que seria tão incrível. Lembro de um fotógrafo que contratei por insistência do cliente. Um profissional super renomado, de trabalhos importantes para moda e celebridades. A gente estava em busca de um novo olhar e tudo que eu via no trabalho dele era um olhar viciado do mercado tradicional. Fiquei muito chateada em ter que abrir mão daquele espaço, mas fui presenteada com um momento muito marcante. Aquele fotógrafo estava exatamente em um momento da vida de se experimentar em um novo lugar, de apresentar um novo olhar. Ele era exatamente o que a gente precisava!

Voltando ao tema central desse artigo, é importante que eu faça uma ressalva. Poucas vezes eu trabalhei como freela no sentido mais conhecido do termo — um profissional autônomo que cada hora está em uma empresa. A maior parte do tempo fiz parte do time de consultorias e fiquei por tempos nelas, mas sempre como PJ, sem carteira assinada, sem benefícios e seguranças do emprego em uma grande empresa. Mas como um freela, com projetos, times e clientes novos.

Confesso que, ao mesmo tempo em que minha alma inquieta vibra com a vida em constante mudança, a vida por projetos pode ser também muito cansativa. Primeiro, porque a cada novo projeto você vai precisar estudar e se aprofundar em um mercado diferente. Você também vai ter que conhecer e criar relacionamentos com os novos clientes. Além disso, você vai ter que dar conta de entregar o trabalho em si e de toda a parte operacional e administrativa.

Ao longo das minhas experiências, fui aprendendo na prática, errando e acertando. Compartilho com você as principais dicas. Nem todas eu dou conta de colocar em prática, mas eu tento!

  1. Organize seu fluxo de caixa

Essa é certamente a dica mais importante que você vai ler aqui! Porque ainda que sua conta de luz vença todo dia 10, cada projeto tem uma forma de pagamento diferente e você não vai receber todo dia 10. Então, tem meses que você vai receber um monte de dinheiro e meses que não vai receber nada. Aprenda a anualizar seus ganhos e provisionar mês a mês. Eu tenho um investimento só para o dinheiro para fluxo e os valores para reservas ficam em outros investimentos. Pode não ser a melhor estratégia financeira, mas certamente facilita o controle do dia a dia.

2. Dinheiro é liberdade

Você vai precisar ter uma reserva para os momentos em que não tiver trabalho. Para mim, o maior desafio desses momentos é driblar a ansiedade encontrando formas de ocupar o tempo sem gastar dinheiro. Minha vontade é fingir que estou de férias e viajar. Mas, na vida PJ não tem seguro-desemprego, não tem multa por demissão, FGTS. Se amanhã, você ficar sem trabalho, amanhã, você fica sem dinheiro. Por isso, é muito importante que você organize uma reserva financeira para esses momentos. Sugiro que você tenha no mínimo 3 meses, idealmente 1 ano, do seu custo mensal de vida guardado. Essa é sua reserva de emergência, não é o dinheiro para a viagem, o carro, o computador novo. Eu sei, pode parecer impossível, mas comece aos poucos.

3. Faça um plano de saúde

Essa você vai descobrir que não é nada simples! Além de custar caro, existem poucas opções de planos de saúde individuais. Ou você precisará ter no mínimo 2 vidas no seu plano, ou terá que se juntar a um plano coletivo, que custa ainda mais caro.

4. Invista no Home Office

Cadeira confortável, computador, serviço de armazenamento em nuvem, material básico de escritório. Eu tenho até impressora em casa. Importante também ter um técnico de TI confiável e disponível. Pois é, você vai sentir saudades do cara do TI.

5. Rotina e Disciplina

60 a 70% das pessoas que escolhem a vida freela, escolhem em busca de liberdade, flexibilidade e controle sobre quando e para quem trabalham. É o que descobriu a mesma pesquisa da Upwork que citei no início deste texto.

Se esse é o seu caso, disciplina é o que vai te dar liberdade. Organize sua agenda para os diferentes projetos. Lembre de colocar os momentos de trabalho individual e não apenas as reuniões. E não esqueça de colocar seus compromissos pessoais, como exercício, almoço com amigos. Essa é a dica que eu menos sigo. Quando vejo, estou com a agenda cheia de trabalho, o exercício já era, não encontro os amigos. Uma tristeza! Não faça o que eu faço, faça o que eu digo!

6. Tire férias

Eu sempre consegui tirar férias nessa vida freela. Um luxo! Normalmente, dezembro e janeiro são meses de baixa demanda no meu mercado e quando consigo me desligar, fazer uma viagem mais longa. Tenho amigos que são mais organizados e conseguem aproveitar a baixa temporada, eu ainda chego lá!

7. Ative sua rede de contatos

Um dos maiores desafios é conseguir dedicar tempo para entregar os projetos e ao mesmo tempo ir atrás de novos trabalhos. Mantenha ativa sua rede de contatos. Atualize o LinkedIn, marque um café, mande uma referência de alguma coisa que está pesquisando. Lembre de se manter no radar das pessoas para quando surgirem oportunidades de trabalho, elas indicarem você.

Seguindo algumas dessas dicas, acredito que você poderá experimentar uma vida PJ com liberdade e flexibilidade ao mesmo tempo que com segurança e tranquilidade.

Construí minha carreira de uma forma não linear, sempre muito alinhada a meus valores, no que quero aprender e no que quero experimentar. Por muito tempo, fez sentido explorar a vida PJ e sinto que agora é hora de voltar a explorar a vida em uma grande empresa.

Como será a vida de uma ex-PJ dentro de uma corporação? Prometo voltar aqui e contar para vocês.