FalaPET N° 10 — Análise da Curva de Phillips e a relação com a Inflação brasileira

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Todos os dias somos entorpecidos por todas as mídias, sejam oficiais ou não, sobre a performance do PIB, desemprego, inflação, dentre outros indicadores econômicos, mas nunca consideramos o que levam o comportamento desses indicadores e a política de contenção de seus fenômenos, ora de alta, ora de baixa. No FalaPET N° 4, onde discutimos a política de preços da Petrobras, sugerimos discutir a hipótese do aumento generalizado dos preços por conta de uma mudança no custo de produção em outra ocasião, tal qual se posiciona nesse artigo a oportunidade.

As razões para a inflação brasileira, evidentemente, são diversas, contudo, vamos elaborar um paralelo com a mudança na política de preços dos EUA no período da crise do petróleo em 1970 e a mudança na curva de Phillips e seus elementos que justificavam a relação entre taxa de emprego e inflação.

O fato é que o Brasil vem passando por grandes dificuldades econômicas nos últimos anos para enfrentar o alto índice de desemprego e a inflação, que por hora incorre em decorrência não de uma demanda aquecida, mas de uma elevação no custo de produção e consequentemente um período de crescimento igual ou inferior a zero. A fim de responder às possíveis resolução desses problemas, vamos nos basear na curva de Phillips para explicar o que pode levar a alta dos preços, e relacionar com o que está ocorrendo atualmente no país. Está, então, será uma forma de tentar explicar que as especificidades do caso brasileiro, que não cabem nas análises superficiais dos agentes do mercado, na qual a medida que especulam na economia nacional, maximizar seus ganhos em detrimento do retrospecto positivo do país; expõem os contrassensos econômicos expressos na Política Econômica em curso.

A Curva de Phillips trabalha com algumas variáveis conhecidas na economia como:

u = taxa de desemprego;

z (variável abrangente) = outros fatores que afetam a fixação de salários.

π = Inflação

A relação de fixação de salário nominal, se dá pela função W= PF(u, z), onde representa a noção que quanto maior “u”, menor salário. (BLANCHARD, 2005)

O que seria, então, salário nominal? Essa definição se diferencia do Salário Real, enquanto o real representa a quantidade de bens que um trabalhador pode adquirir, o nominal está relacionado à quantidade atribuída para o cargo que o trabalhador exerce. Isso significa que se o salário nominal do trabalhador não for atualizado, ocorre que ele se torna muito mais sensível à inflação, de modo que o seu poder de compra se compromete com sua capacidade de renda, exatamente o que ocorre no Brasil com a desvalorização do salário-mínimo. O salário nominal não teve uma alta correspondente à alta da inflação, condenando o salário-mínimo ao menor poder de compra dos últimos anos. Quanto à inflação, quais seriam suas origens?

Em tese, de acordo com a formulação de Phillips o aumento dos preços se daria pela seguinte dinâmica:

Um aumento no nível de preços esperados (P^e) leva a um aumento nos preços efetivos; se os fixadores de salários nominais, fixam o salário mais alto, acarreta um aumento no nível de preço, a partir desse modelo, conclui-se que o fixador de salários maior, maior, “u”, desta forma fixando salários maiores, uma inflação maior. Se o nível de preço do período anterior indicar o preço mais alto nesse período haverá uma maior taxa de aumento no nível de preço entre o período anterior e esse período, isso é, uma inflação mais alta.

Portando um Aumento no P^e = P (aumento no preço esperado = aumento nos preços efetivos) da mesma forma aqui π^e = π (Um aumento na inflação esperado = aumento da inflação.)

Havendo na inflação esperada, “e”, um aumento na margem, “µ”, ou um aumento em, “z”, leva um aumento da inflação, uma vez que dado o nível de P , um aumento de µ ou “z”, aumenta o nível de preço “P^e”, que por conseguinte é atribuído o argumento anterior P^e (aumenta) = P (aumenta) e assim (aumenta) = “π”. Isso explicaria o fenômeno inflacionário incorrido em uma economia em uma determinada taxa de crescimento. Essa dinâmica segue uma lógica que foi elaborada por Phillips, Samuelson e Solow.

Por trás da lógica da curva de Phillips por Phillips, Samuelson e Solow:

A análise feita por eles foi elaborada no período em que a inflação fora positiva em alguns anos, negativas em outros e com média igual a zero. Ocorre que com a taxa de inflação igual a zero os fixadores de salários esperam que no ano seguinte a inflação também seja zero, e isso afeta a escolha de salários nominais. Ou seja, com e=0, isso significa dizer que precisamente há uma relação negativa entre o desemprego e inflação dada pela função:

No referido caso somente a inflação, “π”, e o desemprego, “u”, estão variando com o tempo. Isso porque a expressão: µ + z são dados como constantes. Por isso, com inflação esperada igual a zero, a relação entre inflação e desemprego eram negativas.

Como explicar então o aumento da inflação relacionado ao desemprego? A relação é feita da seguinte forma, dado o nível esperado de preço — que os trabalhadores tomam com base no nível de preço do ano anteior anterior — o desemprego baixo, leva a um salário nominal mais alto. Com salário nominal elevado afeta o nível de preço e o torna mais alto. Juntando as etapas, um desemprego baixo, eleva o salário nominal, uma elevação do preço, dado o preço no ano anterior, o resultado pragmático desse fenômeno é uma inflação mais alta.

A relação entre as variáveis são as seguintes:

  • Desemprego baixo — salário nominal alto
  • Salário nominal alto — aumenta custo de produção -> aumenta nível de preços
  • Salário nominal mais alto, leva as empresas a um aumento adicional de seus preços. Nível de preços sobe ainda mais.

Em resposta ao aumento do nível de preços, os trabalhadores demandam um aumento adicional do salário nominal quando fixam o salário novamente ano a ano. Assim a corrida entre preços e salários resultam em uma inflação contínua de salários e preços, da seguinte forma:

  • W, alto — “u” baixo, inflação alta,
  • W, baixo — “u” alto, inflação baixa

A mudança na curva de Phillips.

A curva de Phillips original estabelece uma relação negativa entre emprego e inflação, como pode ser visto:

A relação negativa entre emprego e inflação mudou a partir do ano 1970 nos EUA, em decorrência da crise do petróleo, o qual Hobsbown destaca pelo fato da perda de referências levar o mundo à crise. O seu reflexo foi que os fixadores de preços mudaram em função da mudança na expectativa da inflação. A inflação no período começou a se comportar de modo diferente, anteriormente a inflação esperada era igual a zero, tinha-se mais controle sobre suas expectativas, no entanto no período foi verificado uma inflação alta e um desemprego também alto, contrariando a curva de Phillips expressa anteriormente, isso porque a “inflação se tornou mais persistente”, ou seja, aumentou a probabilidade da inflação alta ser seguida por uma inflação alta no ano seguinte, logo a inflação esperada não era mais igual a zero.

O fenômeno que ocorre no Brasil é parecido sobre a mesma indicação prática, tomamos ciência dos altos índices destacando o aumento da inflação e do desemprego concomitantemente, o qual os índices de preços têm sido prejudicado pela transferências dos custos via preço, sobretudo ligados a alta do preço dos combustíveis.

Essa mudança de expectativa modificou a relação negativa entre desemprego e inflação. Não se poderia mais sacrificar um em função do outro, uma vez que se convive agora com taxa de desemprego alta e uma inflação também alta.

A equação então se dará a partir da seguinte forma:

Com isso a inflação esperada vai depender de um valor constante, com peso de

1 — e , em parte da inflação do ano anterior π no tempo (t-1), ou seja, quanto maior o valor de “π”, mais levará trabalhadores e empresas reverem suas expectativas para o ano, e por isso maior será a inflação esperada. Que dizer a inflação esperada está em uma relação de dependência com o π, que seria a inflação presente; contudo, quando = 0 temos a curva de Phillips original, uma relação negativa entre taxa de desemprego e inflação, quanto menor a taxa de desemprego maior a inflação; quanto menor a inflação, maior a taxa de desemprego.

Como a mudança no fenômeno inflacionário em 1970, percebeu-se que, quando é positivo a taxa de inflação estabelecerá uma dependência da taxa de desemprego e da taxa de inflação do ano anterior.

Quando =1 a relação torna-se:

Outrossim, a taxa de desemprego não mais afeta a inflação, mas a taxa de variação da inflação. Estabelecendo a seguinte dinâmica: desemprego elevado, leva a uma inflação decrescente; desemprego baixo resulta numa inflação crescente. Fazendo um paralelo com a curva de Phillips na primeira versão, a relação entre a taxa de desemprego e a taxa de inflação se dava doravante diretamente na inflação.

O Fato é que para entender melhor a relação da curva de Phillips com a taxa de desemprego, seria preciso estabelecer uma relação mais profunda com a Taxa Natural de Desemprego, porém seria um assunto que nos levaria a uma discussão ainda mais teórica do que a que se encontra aqui, ademais, iremos, assim como no primeiro trabalho, deixar esse debate para uma outra oportunidade.

A questão que se coloca, portanto, é porque a curva de Phillips desapareceu, as razões foram apresentadas no trabalho de forma incipiente. No entanto, a crise do petróleo de 1970 teve papel preponderante para elevar o custo trabalhista na proporção que se aumentava o preço do petróleo. Com isso as empresas foram obrigadas a mudar suas expectativas, aumentar seus preços em relação aos salários e aos custos operacionais que estavam praticando. Outro fator foi o comportamento da inflação mudar os fixadores dos salários naquele período e na esteira desse comportamento, um período inflacionário de difícil resolução.

As relações que são necessárias serem feitas são, existe uma relação de paridade entre os eventos ocorridos no Brasil de 2022 e os que levaram ao fim das noções fundamentais da Curva de Phillips em 1970 nos EUA. As similaridades: O preço do petróleo mudava as relações de custo; a taxa de desemprego cresce na mesma proporção que a taxa de inflação. No entanto as ferramentas utilizadas pelo país não têm trazido resultados econômicos satisfatórios, tal qual o modelo econômico aplicado sugere: Meta de Inflação, Taxa de Juros e Superávit Primário. No entanto, o fenômeno da inflação está relacionado a outras questões fundamentais, a relação de custo e não de demanda, ao tripé macroeconômico então se torna inócuo quando não considerado o Pleno Emprego. No modelo aplicado, então, a manutenção da Taxa de Juros aumenta o custo de produção via crédito, o qual já se encontra com seus preços vulneráveis em relação ao custo relacionado à distribuição. Dessa forma a expectativa inflacionária do ano muda, eleva-se os custos de produção, e com uma demanda retraída, aumenta a taxa de desemprego, estabelecendo um antagonismo extremamente disfuncional para o modelo de crescimento do país que só se verá recuperado quando abdicar de consensos internacionais e modelos ultrapassados.

Referências

Boston, Federal Reserve Bank of. «Understanding Inflation and the Implications for Monetary Policy: A Phillips Curve Retrospective». Federal Reserve Bank of Boston (em inglês). Consultado em 8 de maio de 2022

BRESSER-PEREIRA, L.C. e SILVA, C. (2009). “O Regime de Metas de Inflação no Brasil e a Armadilha da Taxa de Juros/Taxa de Câmbio” In: J.L. Oreiro, L.F. de Paula e R. Sobreira (orgs). Política Monetária, Bancos Centrais e Metas de Inflação: Teoria e Experiência Brasileira. Rio de Janeiro: FGV Editora: 21–51.

BLANCHARD, O. Macroeconomia.4ª Edição — São Paulo: Pearson: 2004

HOBSBAOWM, E. Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914–1991). São Paulo, Companhia das Letras, 2003

Brunno Bastos

O FalaPet é uma publicação de resenhas do PET Economia da UFF Campos.As opiniões emitidas nesta publicação são de inteira e exclusiva responsabilidade do autor, não expressando, necessariamente, o ponto de vista do grupo PET Economia/UFF Campos sobre os temas tratados.