Ethereum Merge Finalizado com Sucesso — Mas, e daí?

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Uma Síntese das Mudanças na Política Monetária da Ethereum pós-Merge

Image Source: CryptoSlate

The Merge — Breve Contexto Introdutório

The Merge, a maior atualização da história cripto, foi concluída com sucesso em 15 de Setembro de 2022 — após anos de desenvolvimento. Este evento marca a mudança da rede do sistema de Prova de Trabalho (Proof-of-Work) para Prova de Participação (Proof-of-Stake) com a transição definitiva para a Beacon Chain, que está em funcionamento paralelo desde Dezembro de 2020. Neste artigo, vou me concentrar nas mudanças econômicas, analisando a política monetária passada e futura do protocolo Ethereum.

Existem muitas outras atualizações alinhadas para os próximos meses que introduzirão novas dinâmicas ao ecossistema, como as Shard Chains, mas limitarei a análise aos dados atuais.

Dinâmica Econômica do Antigo Sistema Proof-of-Work — Passado

No sistema Proof-of-Work, mineradores precisam, solucionar quebra-cabeças computacionais complexos para serem designados como validadores do próximo bloco — um processo que requer alto consumo de energia. Consequentemente, a mineração se torna um processo economicamente intensivo, exigindo altos incentivos financeiros por meio da emissão de ETH para que a matemática faça sentido.

Então, vamos mergulhar mais fundo nos números reais:

  • Emissão da Camada de Execução: em cada bloco, ou a cada 13,5 segundos, um bloco é validado com ~ 2,08 ETH em recompensas para o minerador; isso se traduz em 4,93 milhões de ETH emitidos por ano. Considerando a oferta circulante atual de 120,5 milhões, observamos uma taxa de inflação anual de 4,09%.
  • Emissão da Camada de Consenso: além das recompensas por bloco validado, são emitidos cerca de 1.600 ETH por dia — ou 584.000 ETH por ano — e distribuídos aos participantes na camada de consenso (staking). Assumindo os mesmos 120,5 milhões na oferta circulante, há uma taxa de inflação adicional de 0,48%.
  • Taxa de inflação agregada (ou Taxa de emissão anual): 4,09% + 0,48% = 4,57%.

Claramente, essa estrutura de política monetária resulta em constante deterioração da participação de investidores, beneficiando os mineradores acima de qualquer outro agente econômico do ecossistema. O consenso sobre a melhor alternativa é a chamada Prova de Participação (Proof-of-Stake).

The Merge — Evento Catalisador

No modelo PoW discutido acima, a penalidade para tentativas mal sucedidas de atividades maliciosas dos mineradores pode ser resumida ao custo de energia incorrido — métrica vaga e difícil de contabilizar. Com a conclusão do The Merge e a transição para o PoS, os usuários devem submeter 32 ETH ao contrato de staking para se tornarem um validador, montante bloqueado e que serve como colateral (ou garantia). Para comportamentos indesejados, como inatividade, ataques maliciosos e validações enganosas, existem penalidades diretas incorridas no valor submetido (32 ETH), chamado Slashing Penalty.

Com o novo sistema, não há mais mineradores na rede e também não há recompensas por bloco — analisaremos essa diferença econômica abaixo.

Ethereum.org, “ Consumo de energia ”

Antes de passarmos para os cálculos de inflação do modelo PoS, é importante destacar a enorme redução de + 99% no consumo de energia da rede, dada a baixa necessidade de poder computacional para a execução de nós. No gráfico acima, fica claro que as preocupações com as diretrizes de ESG são amenizadas — ou até mesmo erradicadas, o que abrirá muitas portas para players institucionais investirem e desenvolverem ainda mais o ecossistema Ethereum.

Política Monetária do Novo Sistema Proof-of-Stake — Futuro

Dito isso, a principal informação que queremos analisar é a nova taxa de emissão de ETH e compará-la à taxa de emissão pré-Merge.

  • Emissão da Camada de Execução: Zero. No sistema PoS, não há recompensas por bloco, como acontecia no Ethereum pré-Merge e se mantém no Bitcoin; Taxa de inflação de 0%.
  • Emissão da Camada de Consenso: Não há mudanças aqui, mantendo a mesma emissão diária de ~ 1.600 ETH distribuídos aos participantes da camada de consenso (staking). Assumindo os mesmos 120,5 milhões de oferta circulante, temos uma taxa de inflação anual de 0,48%.
  • Taxa de inflação agregada (ou Taxa de emissão anual): 0% + 0,48% = 0,48%.

Trata-se de uma redução de 89% na taxa de inflação da rede, melhorando diretamente os incentivos econômicos e o potencial de upside do ativo. Mas isso ainda faz o ETH ser um ativo inflacionário, certo? Bem, depende. Caso o preço do gás (custos de transação) da rede for em média 16 gwei ou mais, pelo menos 1.600 ETH serão queimados por dia, tornando-o um ativo deflacionário. Assim, supondo que a curva de adoção continue tendendo positivamente, muito provavelmente teremos um cenário de ativo deflacionário.

Considerações Finais

Ao comparar PoW e PoS, existem muitos argumentos para apoiar ambos os lados. No caso da Ethereum, no entanto, a tese primária é se tornar a camada base para todos os DApps (Aplicações Descentralizadas), o que necessariamente implica em adoção em larga escala. Escalabilidade, preocupações com energia e custos de transação são essenciais para a adoção em massa, e a equipe da Ethereum Foundation segue guiando o ecossistema na direção correta. Existem várias atualizações planejadas nos próximos meses, até chegar no tão esperado Sharding — quando deveríamos finalmente ver custos mais baixos de gás.

A Ethereum agora possui uma política monetária mais adequada no que se refere à agregação de valor, e dependerá apenas do seu trabalho no aumento da adoção e subsequentes desenvolvimento tech para ter sucesso a longo prazo.

Fontes:

https://ethereum.org/en/energy-consumption/

https://ethereum.org/en/upgrades/merge/issuance/

https://ethereum.org/en/upgrades/merge/

https://tokenterminal.com/terminal