Elon Musk Compra o Twitter: o Sucesso da Tesla Será Repetido?

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Foto por Jenny Ueberberg, disponível em Unsplash

No dia 25 de abril a board of directors do Twitter aceitou a oferta do Elon Musk para comprar a empresa por 54,20 dólares por ação. A compra deve ser concretizada daqui a 3 a 8 meses, enquando trâmites legais são finalizados; assim os acionistas terão suas ações automaticamente vendidas, e o Twitter se tornará uma empresa privada.

Lançado em 2006, o Twitter é uma das redes sociais mais populares do mundo. Porém, o impacto da plataforma é muito maior do que seu número de usuários sugere. Com mais de 10 vezes menos usuários que as redes sociais do Meta (antes Facebook), o Twitter é uma plataforma importante para os formadores de opinião — influencers digitais, atores, políticos, jornalistas e figuras públicas em geral. Assim, as discussões que se iniciam no Twitter se espalham por outras redes sociais e até mesmo para talk shows e telejornais. Com isso o Twitter influencia muitas pessoas que não são ativas na plataforma.

Entre gigantes como o Instagram, Youtube e Tik Tok, o Twitter se mostrou uma rede social frágil; tendo dificuldades com sua lucratividade e problemas para atrair novos usuários, passando por 5 CEOs em 16 anos de existência. A plataforma precisa de mudanças, e Elon Musk pode ser a pessoa ideal para trazer essas mudanças.

Controversa política

Muito da discussão sobre a compra do Twitter vem pautada nas inclinações políticas de Elon Musk. O bilionário anunciou que pretende tornar a plataforma um haven para a liberdade de expressão. Nos últimos anos, Musk vem tomando uma guinada para a direita, tendo criticado os lockdowns para conter a pandemia do coronavírus e o banimento do ex presidente americano Donald Trump da plataforma. Outlets de direita comemoraram a aquisição da rede social, enquanto a esquerda se mostrou altamente contrária à compra.

O ângulo político dessa aquisição deve se mostrar muito mais como uma jogada de marketing do que uma real mudança nas políticas do Twitter. Quando Musk fala das mudanças que ele quer trazer ao Twitter, ele menciona maior transparência sobre os algoritmos da plataforma e adição de um botão editar. Ele não fala que tweets racistas, homofóbicos ou que promovem conspirações anti-vacina serão liberados na plataforma.

“Você quer um botão de editar?”, pergunta Musk.

A liberdade de expressão irrestrita em redes sociais permite que grupos A liberdade de expressão irrestrita em redes sociais permite que grupos deploráveis se conectem e até recrutem novos membros. Grupos como pedófilos, neonazistas ou terroristas islâmicos. Os usuários do Twitter deploram esses grupos na mesma intensidade que empresas detestam anunciar em sites com esse tipo de conteúdo. A plataforma vai manter muitas políticas de moderação, visando manter conteúdo extremista longe da plataforma.

Por isso, o Twitter jamais se tornará um Gab ou Parler — redes sociais criadas com a missão de proteger a liberdade de expressão — mesmo para discursos de ódio — largamente povoadas pelos membros mais conspiratórios da extrema direita. O mais provável é que teorias da conspiração “menos danosas” — como o 5g sendo responsável pelo coronavírus — deixarão de ser motivo para o banimento de uma conta e passarão a apenas receber avisos, ou outra punição menor, enquanto conspirações mais danosas — como aquela que acusa os pais das crianças mortas no massacre na escola de Sandy Hook, em 2012, de serem atores contratados pela CIA — continuem recebendo as mesmas restrições .

Muito Poder para um Homem só?

Algumas pessoas se mostraram preocupadas que um único homem terá tamanho controle sobre o Twitter, temendo que Musk censure seus críticos. É importante notar que Musk não será apenas o maior acionista ou o CEO do Twitter, mas o dono de toda a empresa — o que teoricamente o deixa com mais controle da companhia que, por exemplo, Mark Zuckerberg tem como CEO do Meta. Porém, Musk deixou claro que pretende aumentar a liberdade de expressão no Twitter. Mark não faz esse tipo de afirmação, mas todas as redes sociais do grupo Meta permitem que seus usuários critiquem tanto a companhia como seu CEO e fundador.

Existe uma crítica a ser feita quanto à acumulação de riqueza de bilionários como Elon Musk, Bill Gates, ou Jeff Bezos, mas a compra do Twitter como uma empresa privada não demonstra uma mudança no status quo. Já vivemos em um mundo onde indivíduos muito ricos possuem controle desproporcional sobre os meios de comunicação. E nossas redes sociais ainda permitem que critiquemos pessoas ricas de forma relativamente irrestrita. Não há porque acreditar que — após clamar por mais liberdade de expressão — Elon seria mais autoritário que seus concorrentes. A

Elon Musk, o CEO

Em 2021 a Tesla atingiu o seleto grupo de empresas com uma Market Cap (cotação das ações na bolsa de valores vezes o número de ações disponíveis) superior a 1 trilhão de dólares; mas é difícil dizer que a Tesla de fato vale mais que um trilhão de dólares.

Fazendo uma breve análise de pares, a Volkswagen vende aproximadamente dez vezes mais carros anualmente do que a Tesla, obteve um lucro bruto 5 vezes superior à Tesla em 2021; e enquanto o lucro líquido médio da Tesla nos últimos 5 anos foi de pouco menos de 500 milhões de dólares, o da VW foi de quase 12 bilhões de Euros. Mesmo assim, a Volkswagen possui um market cap — valor da empresa no mercado de ações — dez vezes inferior ao da Tesla.

A Tesla registrou lucro líquido positivo pela primeira vez apenas em 2020–17 anos após sua fundação, e 12 anos após Elon Musk se tornar seu CEO. Mantendo taxas de crescimento altas, o número de carros vendidos pela Tesla aumentou em 9 vezes desde 2017. Após anos registrando prejuízos bilionários, a empresa registrou um lucro de mais que 5 bilhões USD em 2021, finalmente dando retornos a seus investidores. Ainda não é certo se essa lucratividade será mantida nos próximos anos, mas a Tesla continua em trajetória de crescimento, e seu futuro é promissor. Até o final dessa década, é possível que a empresa de carros elétricos supere outras gigantes do setor automotivo não apenas em market cap, mas também em lucros e número de carros vendidos.

O carisma de Elon Musk e sua habilidade como CEO permitiram que investidores continuassem apoiando a Tesla mesmo quando seus indicadores financeiros não eram favoráveis. Isso levou a Tesla a um market cap muito superior a concorrentes já estabelecidos.

Nos últimos 5 anos o Twitter teve um crescimento similar aos da family of apps do Meta — antigo Facebookduplicando seus usuários desde 2017. O balanço de pagamentos da empresa, porém, é bem menos favorável. O Twitter apresenta flutuações significantes de seu lucro líquido, e não vem conseguindo aumentar nem mesmo seu lucro bruto — apesar do crescente número de usuários. Ou seja, o Twitter tem dificuldades de extrair renda das pessoas que usam sua plataforma. A rede social também possui quase dez vezes menos usuários diários que o grupo Meta — o que significa que ainda existe um vasto público para qual o Twitter pode expandir.

Na Tesla, Elon Musk demonstrou ter visão de longo prazo, o que permitiu que a companhia mantivesse o ritmo de crescimento — e a confiança dos investidores para financiar esse crescimento — mesmo quando a empresa passava por períodos sucessivos de grandes prejuízos.

Um modelo de negócio semelhante pode ser altamente benéfico para o Twitter — uma rede social com altíssimo potencial de crescimento, e que vem apresentando dificuldades em manter sua lucratividade. Com o Twitter deixando a bolsa de Wall Street, seus quaterly reports deixarão de ser públicos, e investir na plataforma será possível apenas para um grupo seleto aprovado pelo próprio Elon Musk. Em teoria, esse grupo seleto deve ser mais tolerante que os investidores comuns caso a plataforma não apresente lucratividade, possibilitando os planos de longo prazo que foram tão benéficos à Tesla. Porém, estar longe dos olhos de Wall Street talvez leve Elon Musk a buscar sonhos, esquecendo de criar uma rede social sustentável e lucrativa.

O futuro do Twitter é incerto, e sob o comando de Elon Musk, a rede social provavelmente dará prejuízo nos próximos anos. Porém, ela também vai passar por uma oportunidade única de crescimento. O Twitter precisa mudar para atingir novos usuários, e a liderança de Musk tem o potencial de levar a plataforma às mesmas magnitudes do Facebook ou Youtube . O viés político que essa aquisição vem gerando na mídia não deve se refletir em como a plataforma vai, de fato, ser gerida sob o comando de Musk.