E o Câmbio?

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Quem é professor ou até mesmo estudante das ciências econômicas e sociais já se pegou questionando: “Isso só acontece na teoria, né? Mas e na prática? Como isso nos afeta?”. São nesses momentos, dentro desse cenário anestésico psicotrópico, que nós economistas tentamos explicar que a teoria nada mais é do que a representação, mais fiel possível de um mundo real, caso contrário, qual sua validade?

Esse questionamento pode ter sido ainda mais recorrente quando se considera as últimas movimentações das maiores economias mundiais e certamente à cerca das expectativas de aumento das taxas de juros nos EUA e redução do balanço patrimonial do Federal Reserve, vendendo e não mais comprando títulos públicos, como o tapering ou afrouxamento monetário preconiza.

Mas se a teoria e o bom senso são correlatos, maiores taxas de juros nos EUA, tudo o mais constante, e já precificado o aumento da Selic, deveria levar a uma saída de capital e não uma entrada de quase US$25 bn em investimentos em portfólio na nossa bolsa de valores. Como explicar isso na prática? Tal é indagação é comum visto que durante toda a nossa formação como alunos só nos ensinam teorias que não se aplicam na prática.

Portanto, dado que os valuations das bolsas de valores dos EUA estavam extremamente esticados, principalmente das empresas de tecnologia ou growth, um aumento nas taxas de juros de 10 anos (livre de risco) diminui o apetite de risco por essa classe de ativo. À primeira vista, contudo, poderia se pensar que essa correção nas bolsas e ações de tecnologia levaria a uma saída de capital de todos os países emergentes.

No entanto, não podemos esquecer que esses mesmos asset managers estão sentados em cima de pelo menos US$1 tri e se 2% de seus ativos fossem obrigados a procurarem ativos de mercado emergentes, dada suas governanças corporativas, onde eles aportariam esses recursos? corporativas, onde eles aportariam esses recursos? Argentina, Venezuela, Bielorrússia, Ucrânia, Rússia, Turquia? Ora, busca-se então os mercados um pouco mais resilientes ou não tão ruins assim, como África do Sul, México e Brasil. Quase US$25 bi de entrada de capital especulativo dá um fôlego danado para a bolsa brasileira e uma alegria no câmbio. Daí a nossa paridade chegar a quase R$5,10.

Mas será que essa apreciação cambial é sustentável? A última ata da reunião do Federal Reserve de 16 de fevereiro mostrou o banco central dos EUA um pouco “Dovish”, isto é, demonstrando, mesmo que timidamente que e sua atuação vai de encontro à explicação dada anteriormente sobre mercados mas isso talvez tenha sido escrito antes do índice que mede a inflação do produtor bater 9.7% (PPI).

Que aliás, parece mais um dado de mercado emergente. Pode ser, mas acho difícil o FED não subir 50 bps na próxima reunião de março e começar a encolher seu balanço via venda de títulos públicos e Mortgage Backed Securities (Contrato garantido por hipoteca). Não comprar menos títulos públicos, como o FED continua fazendo no montante de US$60 bi por mês, com expectativa de parar em março, mas já iniciar, no início do segundo semestre deste ano, um encolhimento da base monetária do FED, via venda de títulos públicos e Mortgage Backed Securities.

Diante de todo esse cenário, soma-se a isso uma política monetária mais contracionista na zona do Euro, que já está com uma inflação ao consumidor rodando a 5% ao ano, além de um começo da corrida eleitoral, e talvez grande parte daquele investimento em portfólio, extremamente volátil, que veio aproveitar parte da festa, saia do país.

Com isso, aprendemos que em economia nada se lacra, ou pelo menos o futuro não sobre o futuro, mas arrisco afirmar que nosso câmbio não vai continuar como se fosse de um país nórdico. Acredito mais em uma paridade de 5.60 a 5.70 para o final do ano do que 4.60, advindo de otimistas incorrigíveis ou tocados por goles generosos de Ayahuasca.