Brasil: o país do freela

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Depois de passar algumas semanas sem escrever aqui no medium infelizmente venho trazer notícias pouco animadoras sobre a economia brasileira. O IBGE nos últimos 15 dias divulgou pesquisas que deixam evidentes a relação conturbada que o Brasil possui com a produção de capital e mão de obra produtiva. E durante a pandemia o problema se tornou ainda mais intenso.

Segundo a pesquisa divulgada pelo Instituto em dados coletados do Cempre (Cadastro Central de Empresas), em 2020 número de assalariados caiu, enquanto o número de empresas sem empregados aumentou. Ao passo que no mesmo período, o número de empresas e outras organizações ativas cresceu 3,7% frente a 2019, chegando a 5,4 milhões e o número de sócios e proprietários aumentou 4,3%, totalizando 7,3 milhões. O que nos leva a inúmeros questionametos, alguns deles sobre quem são essas pessoas empregadas, quem são as pessoas desempregadas e o principal: quais são os reais motivos delas estarem desempregas? E como são seus vínculos empregatícios atuais? CLT? PJ?

A pesquisa vai ainda mais além, mostrando que a retração na população assalariada atingiu a maior parte das atividades econômicas analisadas pela pesquisa. A maior perda em termos relativos foi em Alojamento e alimentação, com queda de 19,4%. Detalhe: essa é a maior da série histórica da pesquisa, iniciada em 2007. Isto significa que se as famílias estão gastando menos com alojamento (lê-se hotéis e pousadas), muito por conta do distanciamento social forçado pela pandemia, que, claro, impactou demais o setor de viagens. E alimentação porque (sim) estão se alimentando menos, seja fora ou dentro de casa.

Aliás, um ponto que vale a pena pensar se isso ocorre mesmo apenas por conta da pandemia ou por causa da persistente e intensa inflação que atinge a nossa economia. Em abril, por exemplo, o IBGE no IPCA -20 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) divulgou que o grupo de Alimentação e Bebidas teve uma variação positiva de 2,06%.

O grupo de Transportes também chama a atenção, mas, como muitos sabem, é influenciado pelas sucessivas altas nos preços dos combustíveis. O setor sofreu alta em seus preços de 1,91% e 1,34% em Abril e Maio sucessivamente, sendo um dos mais impactados pelas políticas de distanciamento social e combate à pandemia, as atividades de Transporte, armazenagem e correio sofreram uma redução de 4,0% no número de trabalhadores assalariados na atividade.

Ademais, vale destacar que as maiores reduções de assalariados foram nas atividades de Alojamento e alimentação (-373,2 mil), Administração pública, defesa e seguridade social (-233,9 mil) e Comércio; reparação de veículos automotores e motocicletas (-221,7 mil). Já o maior aumento (139,3 mil assalariados) foi em Saúde humana e serviços sociais.

A pesquisa do IBGE, deixa evidente as problemáticas que o Brasil precisa resolver com certa urgência se ainda tiver a ambição de se tornar um país produtivo, é ano de eleição e de fato, é algo que precisamos estar atentos. É bem pouco eficaz fechar os olhos ao fato de que, nessa mesma pesquisa o IBGE mostra que em 2020, enquanto o número de homens assalariados caiu 0,9%, o de mulheres caiu 2,9%. Do total de 825,3 mil postos de trabalho perdidos entre 2019 e 2020, cerca de 593,6 mil (ou 71,9%) eram ocupados por mulheres. Com isso, pela primeira vez desde 2009, caiu a participação feminina entre os assalariados das empresas formais do país: de 44,8% em 2019 para 44,3% em 2020. Foi a menor participação feminina desde 2016. Um enorme retrocesso que o mercado tem poder para reverter, basta ter ambição e ousadia.

E, para fechar a pesquisa com tantas notícias ruins, porém que servem de alerta, o Instituto ressaltou que em 2020, a massa salarial recuou 6,0% frente a 2019, a maior queda na série histórica da pesquisa. Já o salário médio pago pelas empresas do país caiu 3,0% frente a 2019, chegando a R$3.043,81, ou 2,9 salários-mínimos. Ou seja, as empresas estão pagando menos e empregando menos, a questão que fica a ser respondida é: quem são e onde estão essas pessoas que precisam de empregos? Certamente, voltando suas energias a trabalhos bem pouco produtivos e que quase nada acrescentam à suas vidas e ao mercado de forma geral.