0,25 mudam o mercado, mexem no seu bolso e afetam a sua vida!

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Até o meio da tarde de ontem, os mercados de capitais globais estavam bastante estressados.

Fui dar uma bizoiada nas cotações das bolsas brasileira e americana e tomei um susto. Parecia que alguém tinha derramado ketchup na minha tela; quase todos os ativos estavam no vermelho.

Alguns minutos depois, quando chequei novamente, o vermelho sangue havia dado lugar à cor da esperança: um verde intenso, sinalizando empolgação e otimismo.

Quem não está acostumado pode se assustar com essas mudanças repentinas, mas a verdade é que esse humor bipolar é o padrão do mercado.

Mas qual o motivo dessa agonia, dessa ansiedade toda?

A palavra adequada é expectativa.

É que o mercado financeiro, apesar de antigo, é uma criança ansiosa, que não pode esperar o dia do aniversário para receber o presente.

O que tá rolando agora tem pouca importância, a brincadeira preferida é tentar descobrir o que vai acontecer no futuro.

No caso dos mercados ontem, o que interessava era o futuro da taxa de juros americana ( FED Funds Rate).

Ninguém estava nem um pouco preocupado com o aumento da taxa que seria realizado na reunião de ontem.

Já era consenso que o FED (banco central americano) subiria 50 pontos base (0,50), levando a taxa para um intervalo de 0.75% a 1% (é, lá não é um número cravado que nem aqui, é um intervalo).

Isso porque os banqueiros centrais precisam telegrafar seus movimentos antecipadamente, para o mercado não morrer de ansiedade. Pense neles como as mães que precisaram revelar para os filhos ansiosos, no ano passado, qual seria o presente do aniversário deste ano.

Pois então, o que o mercado queria saber mesmo é qual seria o presente de aniversário do ano que vem, ou melhor, qual seria o tamanho do próximo aumento de juros.

A verdade é que FED já tinha prometido subir a taxa de 50 em 50 pontos a cada reunião (que acontece a cada 45 dias mais ou menos), mas com a inflação pegando fogo, havia uma suspeita de que o órgão precisaria aumentar a dose, subindo entre 75 e 100 pontos.

Explicando rapidamente como funciona o pagode, quando a inflação sobe muito, os bancos centrais aumentam a taxa de juros, fazendo o dinheiro ficar mais caro.

Assim, as pessoas tendem a preferir economizar/poupar do que consumir e tomar dinheiro emprestado, o que faz a economia desacelerar, reduzindo os preços, ou seja, controlando a inflação.

A explicação perfeita envolve outras variáveis, mas essa é a essência da coisa: a inflação subiu, o banco central sobe a taxa de juros para combatê-la; quando ela cai, o banco central pode reduzir a taxa de juros para estimular a economia. É um ciclo contínuo…

Mas, voltando para a nossa história, como o dólar é a moeda de referência para o comércio global, e os EUA são os donos da impressora de dólar, se o FED aumentar demais a taxa de juros, a galera vai sacar os dólares espalhados pelo mundo e levar para lá…

Trazendo aqui para o nosso quintal, se os EUA aumentarem muito a taxa de juros, o gringo vai tirar a grana daqui e mandar para lá, afinal, emprestar dinheiro para o governo dos States é mais seguro que emprestar para o governo brasileiro.

Aí é que o bicho pega: se os dólares sumirem daqui, a cotação da moeda americana vai para lua, pois o preço do dólar depende da lei da oferta e da demanda, assim como qualquer produto.

Pense bem, se de uma hora para outra todo mundo parar de vender laranja na sua cidade, o que vai acontecer com o preço dela? Pois então, é a mesma coisa com a moeda americana.

Como o preço de quase tudo é dolarizado de alguma forma, se o preço do dólar aumenta em relação ao real, o valor dos produtos no Brasil aumenta também. Adivinha só? Mais inflação.

Sendo assim, se o FED aumentar muito a taxa de juros, para manter os dólares no Brasil, não resta outra alternativa para o COPOM (órgão do BACEN que determina a taxa Selic) a não ser aumentar mais a taxa Selic.

Acontece que o COPOM já tinha realizado um aumento caceteiro na Selic nos últimos meses, levando-a de 2% para 11,75% ao ano, para controlar a inflação por aqui.

Como saiu na frente em relação ao resto do mundo, o COPOM já havia prometido ao mercado ( sinalizado, na verdade; mas você sabe, o mercado é uma criança ansiosa) que estava perto de finalizar os aumentos.

Só que depois dessa promessa do COPOM, a galera do FED mudou o discurso, dizendo que “não iria tolerar a inflação e iria fazer o que fosse necessário para controlar o ‘dragão’”, o que o mercado entendeu como “aumentar a taxa de juros mais forte e mais rápido”.

Era por causa disso que os mercados, principalmente o brasileiro, estavam roendo as unhas ontem.

Pois, se o FED aumentasse o ritmo por lá, a taxa Selic, cuja expectativa geral era que terminasse ao ano em torno de 13,50%, poderia subir para Deus sabe quanto.

Sendo assim, não era só o mercado que estava aflito ontem.

A galera do COPOM, que também estava fazendo a sua reunião e divulgaria a nossa Selic ontem, permanecia com um olho no gato e outro no rato, já que o FED divulgaria a taxa americana primeiro (vida longa para o fuso horário!).

Então, quando o FED anunciou o aumento de 50 pontos base e “prometeu” que não iria acelerar o passo, o mercado respirou aliviado.

Para completar o alívio, o COPOM anunciou o aumento de 100 pontos base para a Selic no fim do dia, levando-a para 12,75% ao ano, “prometendo” que o ciclo de aumento estava próximo do fim.

Só de pensar que o mercado derreteria e a Selic iria para a lua se o FED decidisse aumentar 0,75 pontos na próxima reunião…

Já pensou a Selic a 20% ou mais? Os empréstimos ficariam proibitivos, os investimentos na economia real secariam, o PIB iria retrair, o desemprego pioraria ainda mais… Assusta só de pensar…

0,25 nunca foi tão importante… Parece até corrida de Fórmula 1, decidida nos milésimos (nos décimos, neste caso) …

Pois é, um pequeno grande detalhe que tem implicações gigantescas para os mercados e para a nossa vida.

A economia pode não ser uma ciência exata, mas é fascinante, não resta a menor dúvida.

Mas sabe como é né, o moleque já tá querendo saber o que vai rolar no Dia das Crianças, qual o presente de Natal, qual o destino das férias de janeiro…

Tem muita coisa acontecendo no mercado… Guerra da Ucrânia, surto de Covid-19 na China, inflação descontrolada, eleição em diversos países…

Nem sempre conseguimos cumprir as nossas promessas. Acontece conosco, acontece com o FED, com o COPOM…

Só nos resta viver um dia de cada vez e tentar não se contaminar com a ansiedade do mercado…

Até a próxima!

Ah, e se precisar de ajuda para entender melhor como tudo isso afeta a sua vida, dá uma olhada no meu livro… Lá tem o bê-á-bá completo, numa linguagem simples e leve…

E se precisar de qualquer coisa, é só me chamar por aqui.

Conte comigo!!!

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